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Papa chega a Cuba para encontro histórico com patriarca ortodoxo de Moscou

12/02/2016

 

 Francisco e Cirilo vão reunir-se após quase mil anos de separação entre Igrejas

O Papa Francisco, em foto de 30 de janeiro, e o Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, Kirill, em foto de 7 de janeiro (Foto: AP Photo/Ivan Sekretarev/Andrew Medichini)

 

Havana, 12 fev 2016 (ECCLESIA) - O Papa chegou hoje a Havana, capital de Cuba, cidade escolhida para acolher o inédito encontro entre o Papa e o patriarca ortodoxo de Moscovo, iniciativa anunciada há uma semana em comunicado conjunto.

 

O encontro em Cuba, onde o patriarca Cirilo está no âmbito da sua primeira visita oficial à América Latina, inclui um "colóquio pessoal" no aeroporto internacional José Martí de Havana e conclui-se com a assinatura de uma declaração comum.

 

Ortodoxos e católicos encontram-se divididos desde o Cisma do Oriente, em 1054, data em que trocaram excomunhões o Papa Leão IX e o patriarca de Constantinopla Miguel Cerulário; as excomunhões foram levantadas em 1965, mas as Igrejas não recuperaram ainda a unidade plena.

 

Francisco deixou Roma às 08h24 (07h24 em Lisboa)  para chegar à capital cubana minutos antes das 14h00 locais (mais cinco horas em Lisboa), onde foi recebido pelo presidente Raúl Castro.

 

Francisco e Cirilo encontram-se agora em privado numa sala do aeroporto de Havana, durante cerca de duas horas, numa escala do Papa a caminho do México.

 

"A Santa Sé e o Patriarcado de Moscovo têm o prazer de anunciar que, pela graça de Deus, sua santidade o Papa Francisco e sua santidade o patriarca Cirilo de Moscovo e toda a Rússia se vão encontrar no próximo dia 12 de fevereiro", referia a nota de imprensa divulgada no último dia 5.

 

Às 16h15 locais (21h15 em Lisboa) vai ter lugar a troca de presentes e 10 minutos depois o presidente Raúl Castro junta-se aos dois líderes religiosos, antes da assinatura declaração da declaração conjunta católico-ortodoxa, seguida de intervenções de Francisco e Cirilo.

"Este encontro dos primazes da Igreja Católica e da Igreja Ortodoxa russa, preparado há muito tempo, será o primeiro na história e marcará uma importante etapa nas relações entre as duas Igrejas", acrescenta ocomunicado oficial.

 

A Santa Sé e o Patriarcado de Moscovo desejam que o encontro "seja um sinal de esperança para todos os homens de boa vontade".

 

Na capital russa, o Departamento para as Relações Exteriores do Patriarcado de Moscovo adiantava aos jornalistas que um encontro deste género estava em preparação "há quase 20 anos" e foi acelerado pelo "genocídio dos cristãos" às mãos de grupos terroristas.

 

O cenário mais esperado para um encontro entre o Papa e Cirilo era um território que fosse considerado "neutro" pelas duas Igrejas, como explicou o padre Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano.

 

Francisco tinha visitado Cuba, pela primeira vez, em setembro de 2015.

 

Em 2014, o patriarca Cirilo enviou uma mensagem de felicitações ao Papa Francisco por ocasião do seu primeiro aniversário de pontificado, elogiando o “fortalecimento da colaboração ortodoxo-católica” na confirmação dos “valores morais-espirituais cristãos no mundo contemporâneo, a defesa dos oprimidos e o serviço verdadeiro ao próximo”.

 

A Igreja Ortodoxa da Rússia é a maior desta comunhão, com cerca de dois terços dos 200 milhões de fiéis ortodoxos, tornando Cirilo, eleito em 2009, um dos mais influentes líderes cristãos.

 

Cirilio reuniu-se com Bento XVI logo após a eleição pontifícia do agora Papa emérito, em 2005, e posteriormente em maio de 2006 e dezembro de 2007, mas no âmbito das suas anteriores funções como responsável pelas relações exteriores do Patriarcado de Moscovo.

 

Entre os temas que separam as duas Igrejas está o alegado proselitismo da Igreja Católica em territórios da antiga URSS - com destaque para a Ucrânia - para além do uniatismo (termo com o qual os ortodoxos se referem aos cristãos de países de tradição ortodoxa em união com o Papa).

 

A 30 de novembro de 2014, no voo de regresso da Turquia, Francisco disse aos jornalistas que tinha entrado em contacto com o patriarca Cirilo e que só a situação da guerra na Ucrânia estava a impedir o encontro.

 

“Já lho fiz saber e também ele está de acordo – temos vontade de encontrar-nos. Eu disse-lhe: ‘Vou aonde quiseres. Ligas-me e eu vou!’ E ele tem a mesma vontade”, relatou.

O Papa defendeu então que as Igrejas católicas orientais “têm direito de existir", mas sustentou que “o uniatismo é uma palavra de outra época, hoje não se pode falar assim”.

 

A Igreja Católica e as Igrejas ortodoxas continuam separadas desde o Cisma de 1054, tendo estas últimas desenvolvido um modelo de autoridade próprio, de cariz nacional, pelo que os vários patriarcados são autónomos e o patriarca ecuménico de Constantinopla (atual Turquia) tem apenas um primado de honra, como 'primus inter pares'.

 

Fonte: Agência Ecclesia

Foto: AP Photo/Ivan Sekretarev/Andrew Medichini - G1

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